10 September 2011

Fichamento de um livro sobre cuidados religiosos

Um jovem amigo que pretende se tornar padre emprestou e sugeriu a mim a leitura do livro“Sim, Sim!Não, Não! Reflexões de cura e libertação” escrito pelo Pe. Jonas Abib, Ed. Canção Nova, 87ª. Edição, São Paulo – SP, 2003.

Não é do meu feitio me meter em questões religiosas. Todavia, a situação exigiu. Meus estudos de Psicologia, Antropologia, Capoeira, Tai Chi Chuan& Chi Kung bem como o fato de que tenho amigos que militam em várias denominações religiosas mostram-me, exaustivamente a cada momento, que a inspiração divina está distribuída por todo o leque das religiões, inclusive as não cristãs.


Então, elaborei e entreguei ao amigo os seguintes comentários, esclarecido que este trabalho é limitado ao que está escrito no pequeno livro que me foi emprestado para leitura. Nada posso dizer, portanto, sobre o restante da obra do autor, seja ela no campo das idéias ou no da prática de vida. Aliás, fui informado por outra pessoa amiga que se trata de padre de altíssimo gabarito intelectual e que tem extensa obra em prol da nossa gente. Não duvido que o seja, caso em que o livro mostra o quão contraditórios podemos ser. Mas vamos ao dito livro.

 Í

Índice dos capítulos e páginas 
1. Sim, Sim! Não, Não! 07 e 08 
2. É hora de libertação 09 a 25 
3. Não quero que tenhais comunhão com os demônios 27 a 44 
4. O segredo é renunciar 45 a 54 
5. Devolve os meus filhos 55 a 75 
6. Serás inteiramente do senhor teu Deus 77 a 99 7. A salvação entrou em minha casa 101 a 112 
8. O sangue de Deus tem poder 113 a 127 

Exame dos capítulos 

1. Sim, Sim! Não, Não! 
É relatada “libertação” da mãe do autor do livro em relação ao espiritismo, religião professada pela família até então. Afirma que “...nosso provo brasileiro é católico...” mas vivemos cercados por cultura espírita do tipo kardecista e afro. Quer dizer, ele entende que ele mesmo está livre da culturas espírita e afro e quer ajudar nós outros a nos “livrarmos” delas também. Ora, ora, se a formação do povo brasileiro é alicerçada, entre outros, em costumes africanos, como podemos pretender nos libertar desses costumes e tradições? Afinal, a tradição afro-brasileira está presente na nossa literatura, vestes, alimentação, modo de rir, de falar, de pensar, de contar causos e até de nos elevarmos espiritualmente. E o autor quer nos “ libertar” disso tudo? Ele quer que nos automutilemos culturalmente? Que eliminemos nossas próprias raízes? Tudo em favor de um modo de vida supostamente puro? O católico romano? Esta é a radicalidade proposta? Pois a mim essa radicalidade se parece muito com a daquele grupo de pessoas que usou o argumento da necessidade de se livrar de influências culturais “impuras” para inventar e pôs em prática o nazismo e semelhados. 

 2. É hora de libertação 
Repetindo que o espiritismo é jugo e a religião do autor a libertação, cita trechos da Bíblia em que Gedeão, com apoio de Deus e mais trezentos homens, vence invasores da Israel de então. Enfatiza a “limpeza” feita por Gedeão na casa do pai, “limpeza” essa que foi pré-requisito a ele para se tornar vencedor em batalha contra inimigos de Israel. Atualizando para hoje o que o pai de Gedeão professava, esclarece o autor, teríamos a macumba. E segue em frente, dizendo que também precisamos nos livrar do espiritismo e de todas as suas consequências. Curioso notar que “...a preguiça de orar em línguas...” é citada como um dos indicadores de baixo progresso espiritual. Isto entre outros “sinais do vírus” e, alerta, tudo devidamente manipulado pelo Cão. E vai adiante com sua proposta de assepsia psudo libertadora: Basta abandonar o reencarnacionismo, dar sumiço em imagens como a de Yemanjá e tudo o mais que não seja do catolicismo. Essa é a limpeza libertadora que o autor propõe. Finaliza o capítulo propondo longa oração que a pessoa deve pronunciar segurando um crucifixo, oração de renúncia, explica ele, de repúdio ao próprio passado reencarnacionista até a quinta geração, etc, etc, rogando salvação por Cristo. 

 3. Não quero que tenhais comunhão com os demônios 
Mensagem simples e direta: quem não estiver comigo - com Cristo - está com o demônio. O leitor é orientado novamente a eliminar ídolos e rituais não católicos, naturalmente – embora não conste do texto - colocando no lugar ídolos e rituais do catolicismo. Tudo como se esta fosse a expressão do bem e o resto todo a do mal. O uso de amuletos é repreensível. Rezadeiras? Nem pensar, são do time do Demo, da galera do Capeta. Após insistir na ladainha de que é preciso renunciar de corpo e alma ao espiritismo, etc, acrescenta que é preciso, também, confessar tudo a um padre e dele obter a absolvição, pois só por essa via se quebrará o contrato já feito – direta ou indiretamente - com o Cramunhão dos Infernos. Encerra o capítulo lembrando que é necessário se livrar de coisas ligadas ao espiritismo, queimar, destruir tudo. 

 4. O segredo é renunciar 
Sem novidades. Além de oferecer mais oração renunciando a “todo tipo de espiritismo” condena explicitamente o sincretismo religioso. A “pureza” cristã é o meio de salvação material e espiritual. Verdadeira ofensa à tolerância em relação às diferenças religiosas. 

5. Devolve os meus filhos Além de dizer da necessidade de salvar os que praticam espiritismo, umbanda e candomblé, ataca, pelas mesmas razões já expostas – são coisas do Demo - , as filosofias orientais e a denominação Seicho-no-iê. Há uma tarefa de resgate a ser feita por Deus e para isso Ele usa a Renovação Carismática Católica, os carismas. Deus precisa que manifestemos os carismas, e vem de novo, na pg 64 “...Ou o seu grupo ora em línguas ou ele nunca vai sair do lugar...”. E por aí vai, sugerindo a entrega do ser aos carismas e a assunção da condição de carismático como instrumento de Deus. Encerra propondo oração a ser rezada para que Deus nos deixe usar os carismas. 

 6. Serás inteiramente do senhor teu Deus Arrogando-se de intérprete abalizado da vontade de Deus, informa que Este proíbe previsões de futuro, astrologia e horóscopo, magias, benzeduras, macumba, espiritismo e evocação de mortos. Creio, porém, que os santos católicos estejam livres da proibição de serem acionados como mediadores entre nós e Deus. E lá vem mais ataques às filosóficas orientais, pois, segundo o autor, são meios de que se vale o Maldito para levar as pessoas ao espiritismo. Da mesma forma adverte que uns tais “cursos de controle mental” também são caminhos bem pavimentados para encontros com Mefistófelis.

7. A salvação entrou em minha casa Lembrando repetidas vezes a passagem em que Jesus vai à casa de Zaqueu, sugere que apresentemos a Jesus todas as pessoas da casa precipuamente as que estão mais distantes de Deus: as dadas ao vício, espiritismo, adultério, drogas e bebidas. Sugere oração e, novamente, a queima de objetos espíritas, seja livro, revista ou folheto. Mais oração e sugestão de orar em línguas. 

8. O sangue de Deus tem poder São propostas diversas orações destinadas a pedir e agradecer, sempre pela intersecção do sangue de Jesus. Embora aqui deixe o espiritismo de lado, não deixa de rogar pela purificação de nossos antepassados. 

 Minha conclusão. 
Se há algo nesse livro que não pode ser contestado é o fato de que às vezes nos faltam visão e conhecimento. pg 36. É exatamente esse o caso aqui, me parece. Na leitura do texto não se nota visão esclarecedora ou conhecimento do autor sobre aspectos básicos da organização humana. Por isso o texto não consegue prestar bons serviços à sociedade. Ao contrário, prega a idéia de intolerância cultural e religiosa. Ora, a tolerância cultural e religiosa por si só já é componente da Ética humana. Mais necessária se torna, no caso brasileiro, em face das diferentes culturas que o formam, sendo, pois, necessária à convivência fraterna em nosso País.

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